Nos últimos dias, um jogo amplamente elogiado foi desclassificado de um festival indie após a confirmação de uso de IA generativa durante o desenvolvimento. A decisão veio depois da premiação já ter acontecido, com prêmios retirados e redistribuídos.
O nome do jogo, por si só, não é o ponto central aqui.
O que importa é o que esse episódio escancarou: a indústria de games ainda não sabe lidar com IA e está reagindo da pior forma possível.
Sem critério claro.
Sem nuance.
E com muito mais medo do que reflexão.
O que realmente aconteceu
O caso é relativamente simples nos fatos, mas complexo nas implicações.
O jogo foi inscrito em um festival que possui uma política rígida contra o uso de IA generativa. No processo de inscrição, o estúdio declarou que não havia utilizado IA. Posteriormente, veio à tona que algumas texturas geradas por IA foram usadas como placeholders durante o desenvolvimento, e que parte desse material acabou presente na versão lançada antes de ser removida em uma atualização.
Com isso, o festival decidiu desclassificar o jogo retroativamente, anulando os prêmios concedidos.
Fim da história?
Não. É aí que o problema começa.
O debate foi para o lugar errado
A discussão rapidamente deixou de ser técnica e virou moral.
Em vez de perguntarmos:
qual foi o impacto real da IA no jogo final,
se isso afetou a experiência do jogador,
ou se houve má-fé ou apenas falha de processo,
o debate foi reduzido a algo muito mais raso:
“Usou IA ou não usou?”
Essa abordagem é preguiçosa e perigosamente injusta.
Estamos julgando jogos ou julgando ferramentas?
Essa é a pergunta que quase ninguém quer fazer.
Um jogo deveria ser avaliado pelo quê?
Pela experiência entregue?
Pela qualidade artística?
Pela execução técnica?
Pela originalidade do design?
Ou pelas ferramentas utilizadas no processo?
Se a resposta for “pelas ferramentas”, então estamos abrindo um precedente complicado.
Porque engines prontas já foram vistas como trapaça.
Asset store já foi visto como trapaça.
Middleware já foi visto como trapaça.
Motion capture já foi visto como trapaça.
Toda nova tecnologia passa pelo mesmo ciclo:
Desconfiança
Rejeição
Normalização
A IA claramente está no estágio dois.
O maior erro não é proibir IA
Vamos deixar algo claro: não é errado um festival impor regras.
O erro não é dizer “não permitimos IA”.
O erro é não definir o que isso significa na prática.
Não existe hoje uma distinção clara entre:
uso temporário vs uso estrutural
IA como placeholder vs IA como conteúdo final
IA assistiva vs IA substitutiva
Tudo é tratado como a mesma coisa.
O resultado?
Decisões arbitrárias, insegurança jurídica criativa e um ambiente onde ninguém sabe exatamente:
o que pode usar
até onde pode ir
o que precisa declarar
o que será punido depois
Isso não protege a criatividade. Isso cria medo.
A hipocrisia silenciosa da indústria
Existe um elefante enorme na sala que ninguém gosta de encarar:
A indústria já usa IA, só finge que não.
Ela usa para:
acelerar pipelines
gerar código
otimizar arte
refinar animações
automatizar testes
reduzir custos
Mas quando a IA deixa de ser invisível, vira problema.
O incômodo não é com a tecnologia existir. É com ela ficar explícita demais.
O medo real por trás do debate
No fundo, esse debate não é sobre ética. É sobre medo profissional.
Medo de:
desvalorização de habilidades
mudança nas regras do jogo
perda de espaço
redefinição do que significa “autor”
Só que nenhuma dessas questões é resolvida com proibição rasa ou punição simbólica.
A história já mostrou isso várias vezes.
O debate está errado
Hoje, a discussão está presa em dois extremos:
IA é o futuro e salva tudo
IA é trapaça e destrói a criatividade
Ambos os lados simplificam demais.
A pergunta certa nunca foi:
“Você usa IA?”
A pergunta correta é:
“Como você usa IA?”
Existe uma diferença enorme entre:
delegar decisões criativas
usar IA como apoio
acelerar etapas repetitivas
testar ideias rapidamente
Misturar tudo no mesmo saco não é debate. É ruído.
Festivais deveriam ser espaços de experimentação
Quando um festival reage com punição retroativa e sem nuance, o recado que ele passa não é:
“Queremos proteger a arte”
O recado real é:
“Não sabemos lidar com isso ainda”
E isso é grave.
Festivais sempre foram espaços onde o risco, o experimental e o diferente deveriam ter lugar. Quando eles passam a agir como fiscais ideológicos de ferramenta, algo se perde no caminho.
O maior risco de fazer isso do jeito errado
O maior risco não é a IA “dominar” os games.
O maior risco é afastar bons criadores.
Quando você pune sem critério:
você favorece quem joga seguro
desestimula experimentação
congela o mercado
Inovação não nasce em ambientes de medo.
A verdade incômoda
A IA não vai embora.
Ela não vai pedir permissão.
Ela não vai esperar o debate amadurecer.
Ela vai ser usada.
A única escolha que a indústria tem é:
criar critérios claros
ou continuar reagindo mal
E, hoje, estamos reagindo mal.
Conclusão
O debate sobre IA em games não está errado por existir.
Ele está errado por como está sendo conduzido.
Com medo.
Com decisões reativas.
Com julgamento moral disfarçado de regra técnica.
Com pouquíssima clareza.
Se quisermos proteger a criatividade, precisamos parar de tratar tecnologia como inimiga.
Porque, historicamente, nunca foi.
