Quando a gente fala “AAA” no contexto de jogos, parece que automaticamente acende um meme nacional:
“Brasil não é capaz de criar um jogo AAA…”
Essa frase aparece em discussão de fórum, em comentário de vídeo, em papo de evento. E ela vem sempre com um subtexto meio amargo:
se o Brasil nunca fez um AAA, então a nossa indústria é “menor”, “menos séria”, “menos relevante”.
Eu não concordo.
Mas a pergunta “por que o Brasil nunca produziu um jogo AAA?” é boa justamente porque obriga a gente a olhar para a estrutura, e não só para a vitrine.
Quero tentar organizar isso em três partes:
O que é, de verdade, um jogo AAA.
Por que o Brasil, historicamente, não chegou aí.
E a pergunta mais importante: a gente deveria mirar nisso mesmo?
Antes de tudo: o que é “AAA”, afinal?
AAA não é sinônimo de “jogo bom” nem de “jogo famoso”. Na indústria, o termo normalmente se refere a jogos com:
orçamentos de desenvolvimento na casa de dezenas ou centenas de milhões de dólares;
equipes de centenas de pessoas (+300 devs, artistas, produtores, QA, etc.);
e, principalmente, marketing em escala de blockbuster, geralmente bancado por uma publisher grande.
Hoje, quando você vê um GTA, um Assassin’s Creed, um Call of Duty, um Horizon… você tá olhando para projetos que:
custam facilmente US$ 100 milhões pra cima (sem contar marketing);
envolvem times distribuídos em vários países;
têm campanhas de marketing que sozinhas custam mais do que muito estúdio brasileiro inteiro vai ver na vida.
Então quando alguém pergunta “por que o Brasil nunca fez AAA?”, não está perguntando “por que o Brasil nunca fez um jogo excelente?”. Está perguntando:
“Por que o Brasil nunca liderou um projeto nessa escala absurda de dinheiro, time e risco?”
Essa é outra conversa.
Contexto: o Brasil é um mercado gigante de games mas isso não se traduz direto em AAA
Do lado de consumo, o Brasil não é pequeno.
Pelo contrário: o país é o 10º maior mercado de jogos do mundo e o maior da América Latina, com algo em torno de US$ 2,6 bilhões em receita em 2022 (infelizmente foi o dado mais atualizado que consegui obter).
Do lado de desenvolvimento, a indústria local vem crescendo:
o faturamento do setor de desenvolvimento de jogos chegou a cerca de US$ 251,6 milhões em 2023;
e o número de estúdios bateu 1.042 empresas em 2023, segundo pesquisas da Abragames/Game Brasil.
Ou seja: tem gente fazendo jogo, tem mercado, tem talento.
Então por que, com tudo isso, a gente ainda não vê “o GTA brasileiro”, “o Witcher brasileiro”, “o Halo brasileiro”?
Aí entram os fatores estruturais.
AAA é, antes de tudo, uma questão de capital (e muito capital)
Fazer um AAA hoje é quase um projeto de infraestrutura:
desenvolvimento: facilmente US$ 100M+;
marketing global: às vezes outro tanto;
ciclo de produção: 4–7 anos;
risco: se der errado, pode derrubar estúdio e assustar investidor por uma década.
Pra isso existir, você precisa de:
publishers gigantes dispostas a bancar essa aposta;
fundos de investimento acostumados a colocar centenas de milhões em IP de entretenimento;
um ecossistema de crédito/financiamento minimamente amigável.
E aqui entra a comparação dolorosa:
Nos EUA, Europa, Japão, Coreia, você tem conglomerados (Sony, Microsoft, Tencent, Embracer, etc.) que enxergam jogos como parte central do negócio.
No Brasil, até muito pouco tempo atrás, jogo nem era reconhecido direito como “indústria” na legislação, e a captação de recursos sempre foi muito mais difícil.
Só pra ter uma ideia: em 2024 o país aprovou um novo marco legal que reconhece jogos de forma mais clara e cria incentivos específicos para o setor, algo que os envolvidos chegaram a chamar de divisão histórica “antes e depois de 2024”.
Ou seja: enquanto lá fora o AAA virou padrão, aqui a indústria ainda tava brigando pra existir no papel.
Não é que não exista dinheiro no Brasil.
Mas o tipo de capital que aceita “trancar” dezenas de milhões num projeto de 5 anos, com altíssimo risco criativo, ainda é raríssimo.
A nossa história com games começou atrasada e torta
Tem outro ponto importante: histórico de mercado.
Importação de videogames no Brasil foi restrita e altamente taxada por muito tempo (não que não seja ainda, haha).
Games eram tratados como “bem supérfluo”, o que empurrou o consumo para pirataria e mercado cinza, em vez de um ecossistema saudável de comércio oficial desde cedo.
Isso tem várias consequências:
as grandes plataformas (Nintendo, Sega, depois Sony e Microsoft) não viam o Brasil como mercado prioritário, prova disso é que a Sony até hoje não envia devkit ao Brasil, e a Microsoft suspendeu parte dos envios;
demorou muito pra surgir aqui uma cultura forte de publisher local, de investimento pesado em propriedade intelectual nacional;
o foco acabou indo para:
mobile
advergames
serviço terceirizado pra clientes de fora
jogos menores, financiados com editais ou dinheiro próprio.
Enquanto EUA/Japão/Europa passavam por décadas de aprendizado em desenvolvimento de jogos em larga escala, com sucessos e fracassos AAA, a gente ainda estava resolvendo:
“Como é que eu vendo esse jogo aqui sem tomar 200% de imposto?” Esse atraso histórico pesa até hoje.
A indústria brasileira seguiu outro caminho: mobile, serviço e AA/indie forte
Quando você olha pros nossos cases de sucesso, quase nenhum deles está no molde clássico de “AAA de console/PC single-player narrativo gigante”.
Alguns exemplos:
Wildlife Studios, virou uma gigante global de mobile, com centenas de funcionários, e foca quase totalmente em F2P mobile em vez de um único projeto AAA de console.
Aquiris, de Porto Alegre, construiu uma reputação forte com jogos como Horizon Chase e, em 2023, foi adquirida pela Epic e virou Epic Games Brasil, hoje com um time de mais de 150 pessoas trabalhando em Fortnite.
Tem ainda uma porrada de estúdio:
fazendo serviço pra jogos de fora (arte, port, co-dev);
criando jogos indies que performam bem em nichos;
explorando serious games, VR, educação, etc.
Isso significa que o Brasil não sabe fazer jogo grande?
Não. Significa que a rota que deu mais retorno até agora não foi “apostar tudo num AAA”, e sim diversificar, principalmente em mobile e prestação de serviço.
É outro tipo de maturidade.
Falta o “meio de campo” entre indie e AAA
Uma indústria que produz AAA com certa frequência geralmente tem uma escadinha bem preenchida:
indie pequeno;
indie mediano;
AA (estúdios com 50–100 pessoas fazendo jogos de orçamento médio);
AAA (monstros de 300+ pessoas e orçamento absurdo).
O Brasil está, hoje, num momento em que:
o degrau indie e pequeno está relativamente forte (+1.000 estúdios, maioria micro/pequena empresa);
algumas empresas começam a entrar no espaço AA / “triple Indie”, com equipes de dezenas de pessoas e projetos mais ambiciosos;
mas a camada AAA local ainda não existe de forma consolidada.
Pra gerar um AAA verdadeiramente brasileiro, você precisa:
de estúdios que já tenham feito vários AA bem-sucedidos;
de equipes acostumadas a pipelines longos, coordenação internacional, outsourcing em massa;
de um histórico de relacionamento com publishers e plataformas em nível global.
Isso está sendo construído, mas ainda é recente demais pra já ter virado “um GTA brasileiro na prateleira”.
Talento a gente tem, o problema é onde esse talento está alocado
Outro argumento comum é:
“Brasil não faz AAA porque falta talento técnico”. Sinceramente? Eu não compro muito essa.
O que a gente mais vê é brasileiro trabalhando em AAA… só que fora:
devs em estúdios da Ubisoft, EA, Riot, Blizzard;
artistas, animadores, tech artists, engenheiros de engine remotos;
brasileiros liderando áreas em estúdios lá fora ou em empresas globais.
Ou seja, o talento existe.
O que falta é massa crítica de talento + capital + gestão no mesmo lugar, com a missão específica de criar uma IP AAA brasileira, do zero, com controle criativo principal aqui.
Hoje, é mais comum ver:
brasileiros contribuindo para AAA estrangeiros;
ou estúdios brasileiros participando como co-dev (fazendo outsourcing).
Isso não é demérito nenhum.
É só um lembrete de que o buraco não está na “capacidade técnica individual”, e sim na estrutura para coordenar e financiar um mega projeto completo daqui.
A pergunta incômoda: faz sentido perseguir AAA agora?
Tem um elefante na sala:
o próprio modelo AAA está em crise no mundo inteiro.
Custos cada vez maiores, orçamentos passando de US$ 200 milhões.
Expectativa de vendas absurda pra se pagar.
Layoffs em massa quando um único grande projeto não atinge meta.
Pressão por “jogos como serviço”, monetização agressiva, etc.
Ou seja, boa parte dos países que já estão nesse jogo há décadas estão questionando a sustentabilidade do AAA.
Aí entra a provocação:
Será que faz sentido o Brasil investir uma década tentando “provar” que consegue fazer exatamente esse tipo de produto…
…justo na hora em que o modelo parece estar chegando num limite?
Talvez a ambição certa não seja “fazer um AAA só porque os outros fizeram”, e sim:
fortalecer nossos AA com cara de AAA (produção caprichada, escopo mais controlado);
explorar nichos em que a gente consegue ser competitivo com menos orçamento;
usar a escala de custo Brasil (em dólar) para construir portfólio, não um único tiro de canhão.
Claro: eu não duvido que, em algum momento, um estúdio aqui acabe liderando um projeto que se encaixa na definição técnica de AAA.
Principalmente agora que temos:
Epic Games Brasil,
grandes mobile com caixa,
novo marco legal trazendo incentivos (ao menos em teoria),
e um ecossistema em crescimento.
Mas eu não acho que “não ter AAA” seja, hoje, o nosso principal problema como indústria.
E muito menos que isso seja um atestado de que “o Brasil não é sério em games”.
Poderia existir um “AAA brasileiro”? Como ele seria?
Imaginando um exercício de futuro: se daqui a 10, 15 anos alguém anunciar “o primeiro AAA brasileiro”, o que isso poderia significar?
Alguns cenários possíveis:
Co-produção internacional liderada daqui
Uma grande publisher global decide fazer um projeto tendo um estúdio brasileiro como lead, com times em outros países.
A IP é nova, mas a cabeça criativa principal é brasileira.
Mobile/online em escala AAA
Um jogo F2P online brasileiro chega num nível de produção, equipe e marketing tão grande que, tecnicamente, ele é AAA – mesmo que não seja aquele AAA “single player cinematográfico de console” que o público costuma imaginar.
AA super inflado que a imprensa chama de AAA
Já acontece hoje em dia: tem jogo AA com produção muito bem feita que as pessoas chamam de “AAA indie”.
No Brasil, é bem possível que o primeiro “AAA” que o público reconhece como tal seja, tecnicamente, um AA muito bem resolvido.
Projeto viabilizado por políticas públicas + capital privado
Se o novo marco legal realmente destravar financiamento e incentivos, dá pra imaginar um consórcio de estúdios, fundos e governo bancando um projeto bem maior, talvez com temática bem brasileira. Muito embora nestes moldes teríamos uma guerra com o audiovisual, mas é assunto para outra hora.
Repare: tudo isso é construção de décadas, não decisão de “vamos fazer um AAA ano que vem”.
E o que isso significa pra você, dev BR, agora?
Se você tá lendo isso como dev (ou aspirante), a pergunta mais honesta é:
“O fato do Brasil nunca ter feito AAA muda o que no meu plano de carreira hoje?”
Na prática, algumas coisas:
O caminho mais realista pra você não é “ser o Kojima brasileiro em 5 anos” O caminho mais provável é:
aprender fazendo jogos menores;
trabalhar em estúdios de diferentes portes;
talvez contribuir com AAA de fora;
talvez entrar num estúdio que hoje faz AA com ambição de crescer.
Existe oportunidade gigante em AA/indie bem feito
A faixa de jogo entre “indie pequeno” e “AAA absurdo” está justamente onde há mais espaço pra inovação, com risco ainda gerenciável.
E é aí que o Brasil tem chance real de se destacar mais rápido.
Mirar AAA pode ser bom como horizonte, ruim como obsessão
Entender como AAA funciona, estudar pipeline, olhar pra esses jogos com olhar clínico, tudo isso é ótimo. Mas se você amarrar sua sensação de “sucesso” a “trabalhar em AAA” ou “fazer o primeiro AAA brasileiro”, é fácil entrar num ciclo de frustração eterna.
A gente está, hoje, construindo a base que talvez permita AAA amanhã
Cada estúdio que cresce, cada jogo que performa bem, cada política pública aprovada, cada parceria internacional… isso tudo é tijolo na parede. Mesmo que você nunca participe de um AAA, o seu trabalho pode estar fazendo parte dessa construção de longo prazo.
Então… por que o Brasil nunca produziu um AAA?
Se eu tivesse que resumir em uma frase, seria:
Porque AAA não é só talento ou vontad, é um resultado de história, capital, estrutura e estratégia de indústria.
E nesses pontos o Brasil começou atrasado, seguiu outro caminho e ainda está amadurecendo.
A boa notícia é que:
a gente tem mercado,
tem dev bom,
tem estúdio crescendo,
e agora tem um ambiente legal e de investimento mais favorável do que nunca.
A pergunta que fica pra mim não é só “quando faremos um AAA?”, mas: Que tipo de indústria de jogos o Brasil quer ser?
Uma que tenta copiar o modelo mais caro e arriscado do planeta…
ou uma que usa criatividade, custo e diversidade cultural pra criar algo que faça sentido pra nossa realidade?
AAA é só um rótulo.
Bom mesmo é ver dev brasileiro podendo viver de jogo, lançar com consistência, pagar conta, criar coisas relevantes, seja com 5 pessoas na equipe ou com 500.
Se um dia vier um AAA brasileiro de capa de revista, ótimo.
Mas, honestamente, eu acho que o verdadeiro “nivel hard” por aqui não é esse.
É conseguir construir uma indústria sustentável o suficiente pra ninguém mais precisar usar “nunca fizemos AAA” como sinônimo de fracasso.

